domingo, 24 de julho de 2011

Pátio da minha avó, aproximadamente uma da tarde, há dez anos e uns cêntimos atrás.


Lembro-me de estar a falar com um primo francês obscenamente mais adolescente que eu na altura, que estava de férias em Portugal. Tinha uns 16 ou 17 anos e era alto e magro, um gajo finíssimo, parecido com uma cobra mas incrivelmente alto e incrivelmente imigrante. Nem estou a falar daquele estereótipo de português "viajado" que volta à pátria munido de uma condescendência omnipotente, o auto-proclamado aprendiz da "joie de vivre" que volta de um outro país como se tivesse voltado de um universo paralelo completamente diferente do nosso onde todas as mulheres têm bigode mas ninguém quer saber e onde os happy meals são servidos em prato com hamburgers de 2cm de diâmetro e quatro batatas fritas. Era mais aquele tipo de imigrante condescendente que se auto-proclama aprendiz da "joie de vivre" e que vol- espera, já disse isto. Voltando atrás, o gajo era mesmo fininho. Não é que fosse incrivelmente magro, mas a altura dele traía a parca massa muscular que tinha pendurada à volta dos ossos; era mais como uma torre do que um pau. Padecia daquele ar de gajo que passa tanto tempo em raves como eu passo a ler a wikipedia e tinha o tom de pele pálido/embaciado correspondente. Tinha um sorriso simpático, feito tanto para bater coro a mulheredo desprevenido como para ambientar qualquer pessoa à bolha pessoal/privada dele. Era isso que eu apreciava no sujeito. Era boa gente e tinha ar disso, não obstante o facto de ser imigrante e saber o que era o raggaeton uns quatro anos antes de haver disso por cá. Para além disso, também gostava de Rhapsody, mas lá está , era fundamentalmente boa gente.


Mais ou menos pela altura que mencionei em cima disto tudo, calhou de estarmos a falar de roupa e ele dizer num portunhol deliciosamente deformado pelo sotaque francês, que todos nós tínhamos um "estillo" (e sim, disse com os dois "l's", à espanhol). Nas palavras imortais dele, "eu tenho um estillo e tu.. (pausa constrangedora) tu tens um.. estillo". Tinha os meus nove, dez, talvez onze anos na altura. Sempre tive aptidão para a empatia e desde muito cedo aprendi a aperceber-me do que as pessoas realmente queriam dizer. Senti uma reluctância ali, uma condescendência. No preciso momento em que ele me falou do meu "estillo", mandei a gargalhada para acabar com todas as gargalhadas. Foi a primeira vez que me lembro de me rir de mim mesmo a sério, sem auto-comiseração, só humor mesmo. Estás a ver quando as pessoas dizem "ri-me com vontade"? A minha vontade naquela altura não era comparável a qualquer vontade humana que alguma vez tenha sido registada em toda a história da humanidade. A minha vontade de rir era imensurável, de tal forma que se fosse exprimida "com vontade" faria com que o universo desabasse sobre si mesmo e fosse substituído por um outro, paralelo, onde todas as mulheres têm bigode e ninguém quer saber e onde os happy meals são servidos em prato com hamburgers de 2cm de diâmetro e quatro batatas fritas.

Por falar nisso, parabéns pelo casamento e pelo bebé, dude. Talvez um dia lhe possas falar do "estillo" dele e te lembres de mim.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Insónias

Odeio silêncio.
Odeio silêncio com cada pequeno átomo daquele lobo cerebral que regulariza o ódio. É muito por causa disso, também, que não sou grande fã de insónias. Especialmente aquelas que parecem vigílias.

Imagina isto.
São duas da manhã. Os teus olhos pesam, sentes os teus músculos a dar de si, o algoz "até amanhã" resguarda o seu domínio sobre ti e sente-lo a lutar contra ti, contra o teu desejo animalesco de o derrotar. O teu quarto toma formas alienígenas, desconhecidas até para ti. Sentes-te conformado com isso. É nesse entorpecimento que o sono te leva. Deitas-te, ciente de que hoje perdeste a batalha.
Esperas que os teus lençóis te acariciem, que a tua cama te proporcione um "abraço" semi-maternal e nele, esperas cair no sono. Mesmo antes de adormeceres contas ovelhas, pensas em dias melhores, pastos mais verdes, dias mais produtivos; pedes que o sol traga um dia semelhante. Fechas os olhos.

São duas e meia da manhã. Acordas, não sabes bem do quê. Não te pareceu sono. Não sonhaste. Sabes que mesmo que sonhasses não te lembrarias de quê, mas precisas do intervalo onírico, entre os dias e as noites e as noites e os dias, e do conforto consequente.
É aí que a insónia se apodera de ti.

Apercebes-te dos sons lá fora. Da cadência dos carros na rua. O ritmo hipnotizante daquilo que te é exterior, daquilo que não faz parte do sono que agora tanto desejas. Resignaste-te, perdeste a batalha e agora não te deixam recolher os espólios da derrota. Por agora e, contraditoriamente, o teu tesouro é o silêncio, realçado pelo compasso minimalista de sons longe de ti.

Não gosto de silêncio. Não é tesouro nenhum. Se tu não gostasses de te ouvir a pensar, também não gostarias do silêncio. Pior ainda, é nessa altura que a solidão se torna dolorosamente aparente. E é aí que começa a tua vigília.
Acredito que te pareça contraditório, mas sabes tão bem como eu que nessas alturas, os sons externos são uma necessidade e prendes-te neles. Entras num ritmo semi-paranóico de *apropriação* de sons.

Mas já são cinco da manhã, a rua não te oferece nada que não silêncio. Resta-te esperar pelo novo dia.